sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O que se vive

   Antes eu imaginava o som da sua respiração, o perfume antes de se deitar, a temperatura dos pés bem mais quentes que os meus. Mas hoje eu não consigo adivinhar a cor das suas pálpebras em qualquer hora da manhã ou da tarde, porque não sei se nosso relógio agora é o mesmo, e acredito até que nossos passos tenham variado o compasso.
   
   Sei que esteve dormindo, mas não pude imaginar o som da respiração. Talvez porque fisicamente, eu estivesse bem longe dali. E entre lágrimas, confrontos existenciais, ria enternecida ao pensar no teu sorriso, dividindo comigo aquela piada quase sempre sem graça, ou aquele discurso que o coração parecia entrar em ebulição de tanta felicidade. 
  
   Estava anestesiada demais para pensar que você preferiria estar de olhos bem abertos. Porque sem dúvida, suas pálpebras juntas, seus olhos fechados, junto do cabelo amarfanhado, não parecia em nada com você, que não queria perder um minuto da alegria de viver. Deve ser por isso que ainda gosto de flores. Obrigada!


   Tenho uma certa pena de quem não testemunha momentos tão cheio de brilho e de vontade, compartilhado sem medo, sem dúvida, querendo só aquilo, mesmo com o mundo inteiro ao nosso dispor, aos nossos pés. E penso que em algum lugar, deve haver essa vida sendo vivida todos os dias por quem talvez nem saiba sobre ela; por que tem gente que vive, sem vive-la.
   
  Escuto todos os seus conselhos sussurrados e vejo como se fosse real aquela mensagem sucinta que me irritava, mas que ainda assim enchia meu coração de alegria. Além disso, tenho a sensação estranha de que eu viverei de novo essa vida, todos os dias, manhãs, noites, maravilhada e cheia de espanto como uma criança que vê tudo pela primeira vez.
   
   Nossos peitos vão se esvaziar de ar e nossos olhos cerrados numa infinidade de sonhos não revelados, tateando o que um dia já conheceu, buscando alguma coisa que não se sabe bem o que é. E mesmo sem saber se existirão tridents comestíveis com papel, sei que minha cara de espanto acompanhado da gargalhada existirão, assim como as surpresas nunca deixarão de fazer parte de qualquer minuto do tempo que a gente quiser.
   
   Meus olhos cheios de água e muito mais inchados que os seus, num sonho que antes era só um algodão desenhado num céu qualquer, talvez com uns fios a mais ou a menos de cabelos desgrenhados, estrelas incontáveis, mas uma única, a que ganhei de presente nessa vida, juntos das nossos papos viajantes nesse planeta água, mas que chamamos Terra.
   
   Hoje nem parece tão confuso porquê eu acredito num infinito bem maior que aquele desenhado do meu pulso, e muito maior do que aquele seus dois braços abertos, tentando desenhar o infinito e além, que nem eram tão enormes assim. 
   
   Vejo teus olhos cerrados - de novo - num misto de sonhos e lembranças, de um tempo curto demais, como na época em que não sabíamos nada sobre reencontros.
   
   E todo aquele medo, aquela insegurança, não cabe mais depois de certezas como esta de que nada chegou ao fim, quando tudo ainda está prestes a começar. E todo aquele monólogo antes de dormir, que nos afastava da realidade desse mundo em que fomos colocados para cumprir alguma coisa, me lembra sobre palavras que expropriamos do resto do mundo. Talvez porquê algumas vozes já não fazem o menor sentido para nós.
   
   Por ora, você me ajuda enquanto me entalo com as lembranças. Continua a me dar aquele suporte, que  é quanto tenho as melhores sensações, mas difíceis demais pra que muita gente possa compreender. 
  
    Mas aquela frase pronunciada, impressa, arquivada e sonhada... Nunca deixarão de existir. Os olhares se encontrarão e não daremos a mínima para qual tempo seja esse. Muito em breve: aquele abraço e todo amor.




Thaís de Miranda


8 comentários:

cintia disse...

Brigada por passar la no blog. Cada uma que aparece, ne? Vou te acompanhar. Beijos!

Bruno Gaspari disse...

Oi Thaís!

Obrigado por comentar meu poema
lá no meu blog;) Vim retribuir
a visita e gostei muito do seu
espaço, parabéns pelo conteúdo!

Abraço

Simone Oliveira disse...

Puxa, eu adorei o seu blog! Gostei muito mesmo, os textos são ótimos!
Quanto ao curtir não achei o seu feio. A diferença é que o meu é a caixinha. Vê no link, aqui: https://developers.facebook.com/docs/reference/plugins/like-box/

Onde tem pra colocar as cores das bordas deixa em branco, transparente eu acho mais bonito!

Beijos e volte sempre! *-*

Bia disse...

Oi Thais! Obrigada pela visita.

Sim, moro em Toronto. :) E vc?

bjs

Dama de Cinzas disse...

Ando tão decepcionada com relacionamentos amorosos que juro que queria tirar de dentro de mim a capacidade de me interessar novamente por alguém.

Desabafo on... rs

Beijocas

Alê disse...

Eu vivi algo muito parecido,

Um porto seguro, e do nada, não sabia mais com quem estava, o qual seriam suas reações (e o porque delas),

Optei por me afastar, e a vida levou pra longe,

Hoje, em momentos difíceis, penso o que me diria


Mas logo afasto tais pensamentos,


E vou seguindo, me encontrando,


**Obrigada pelo carinho,



Um beijo enorme

Lara Mello disse...

Adorei a profundeza do texto, o amadurecimento, o esquecer.. Os ciclos da vida.. Adorei! =**

Marcus disse...

muito bom o seu blog! visitarei mais vezes! bjs