quinta-feira, 24 de julho de 2008

O Pote

O pote permanece aberto. Ali pousam moscas e já passaram piores espécies. Às vezes, quero o pote entreaberto, mas não adianta! Abro, fecho, abro, fecho, eu perco a tampa... Já foi amarelo, rosa, roxo, azul, mas vi muito vermelho ancorar - o vermelho da paixão, o mesmo vermelho do sangrar. O espaço foi algum dia pequeno demais, outros muito grande para o pouco de 'mim' . Agora o tempo mostra que o 'meu mim', é do tamanho do 'eu' que deixei crescer e ainda assim, cabe onde eu quiser, do jeito do meu querer, com ou sem exagero - deixando vazar ou não. Eis ali um pote dentro de outro pote - de carne, de osso e graças a Deus um cérebro que funciona e em avante. Dentro dela tem um pouco de saudade, muito de amor, um tanto de maldade. Está a cerca de leis, lembranças e estampas. Deixa encher, vê transbordar. Pode ser raso, pode ser fundo, pode ser como quiser. Bem como deixar rechear com muito pouco do próprio 'mim', mas infestado de você.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O que eu queria dizer...

"Chega de meias bocas pra preencher profundos vazios. Meias bocas para beijar entradas inteiras. Meios beijos de respeito na testa. Meias palavras para dizer alguma coisa que, feita a análise fria, nada querem dizer.
(...)
Chega de ser metade comida em meios horários e meio amada em histórias pela metade.
(...)
Paciência é dom de amor aquietado, pobre, pela metade. Calma, raciocínio e estratégia são dons de amor que pára para racionalizar. Amor que é amor não pára, não tem intervalo, atropela..."
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Era o que eu queria dizer. Mas eu iria me perder nas palavras.
Se não estou enganada, os trechos são do texto de Tati Bernardi!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A chegada

Logo que coloquei meus pés ali, pensei sobre a dúvida que havitava meu peito dias antes, mas a interrogação já não cabia naquele espaço tão superior do afago antes do adeus.
 
Naquele momento eu aboli todas as vírgulas, os parênteses, os senões, os quem sabes ou qualquer genial estratégia que já havia rondado os meus pensamentos, quando a vontade de quero tudo e agora de você, inteiro e para sempre, tomava conta do meu pedaço mais atado e incapaz.
 
Ali estavam meus anseios mais disfarçados, a vontade mais reprimida, o choro mais contido e a saudade mais confessa.
 
E como se eu já soubesse o próximo passo, o alto teor da intensidade vasava por todos os lados, nu, cru, com todos os gestos escondidos no meu desamparo. Bem ali se escondia meu medo fracionado, ventania e os trovões, o desejo da palavra e da voz que o a mente não conseguia ecoar.
 
Aquela calçada tentou dizer e eu me esforcei para esboçar o sorriso de final de noite. Repeti algumas vezes as mesmas frases jurando acreditar que minhas palavras infames teriam alguma força sobre mim - no quarto, no banheiro, no banho, na chuva, no choro.
 
Mas eu o via nas entrelinhas e na vontade de dividir todos os encantos, ainda que eu prometesse que seria diferente a cada vez que eu passasse por aquela placa lembrete; mais de cinco vezes naquele vai e vem perturbador.
 
Eu almejava um lugar mais distante dali, mais quieto e silencioso, mais aconchegante, mais cheio do seu olhar. Forjando imprecaução das minhas certezas nunca certas, desejando de novo a resposta sólida, doce e sustentável, com a vontade mais asfixiante que já senti.
 
Faltava o constante depois do alívio momentâneo, das 'palavras-surpresa' e dos meus olhos fechados perpetuando segredos. Bem além da voz de todos os dias, da sede saciada a conta-gotas, da insegurança indefesa, da vontade de querer mais. Dois passos além do olhar que não cala, da voz que não fala, do abraço que quer dizer, das mãos que sinto suar, do lábio que vejo tremer, do coração que sinto palpitar, do corpo que dá nó, do mundo que não pára de rodopiar...