sábado, 13 de outubro de 2012

Pra que serve um amigo?

Por Martha Medeiros


Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito. Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, “A Identidade”, que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos. Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos. Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos. Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta. Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país. Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu. Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon. Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado. Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador. Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Mulher não desiste, se cansa.

Mulher não desiste, se cansa. A gente tem essa coisa de ir até o fim, esgotar todas as possibilidades, pagar pra ver. A gente paga mesmo. Paga caro, com juros e até parcelado. Mas não tem preço sair de cabeça erguida, sem culpa, sem ‘E se’ ! A gente completa o percurso e ás vezes fica até andando em círculos, mas quando a gente muda de caminho, meu amigo, é fim de jogo pra você. Enquanto a gente enche o saco com ciúmes e saudade, para de reclamar e agradece a Deus! Porque no dia que a gente aceitar tranquilamente te dividir com o mundo, a gente não ficou mais compreensiva, a gente parou de se importar, já era. Quem ama, cuida! E a gente cuida até demais, mas dar sem receber é caridade, não carinho! E estamos numa relação, não numa sessão espírita. A gente entende e respeita seu jeito, desde que você supra pelo menos o mínimo das nossas necessidades, principalmente emocionais, porque carne tem em qualquer esquina. Vocês nem sempre sabem, mas além de peito e bunda, a gente tem sentimentos, quase sempre a flor da pele. Somos damas, somos dramas, acostumem-se. Mulher não é boneca inflável, só tem quem pode! Levar muitos corpos pra cama é fácil, quero ver aguentar o tranco de conquistar corpo e alma, até o final.

Tati Bernardi


Acho que é por isso que gosto tanto dela. Às vezes, sinto como ela ela me encorporasse para escrever certas coisas. :)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Sobre ter fé


     "Minha vó Edith era minha confidente desde os tempos de criança. Pra ela eu contava qualquer tipo de coisa com o coração todo aberto, porque eu sentia de forma muito clara a facilidade e o acolhimento com que me ouvia. Um bom confidente, às vezes, é apenas aquele que nos deixa livres para dizermos tudo o que quisermos sobre nós, inclusive bobagens das quais talvez nos arrependamos logo depois de dizê-las. Às vezes, é apenas aquele que interage com o nosso sentimento da vez sem estar com a razão toda arrumada para análises profundas, tiradas magníficas, sermões eloquentes, dos quais nem sempre precisamos. Um bom confidente, essa maravilha rara, é aquele que aproxima, generosamente, a vida dele da vida da gente e, apesar da mágica interação que acontece com essa proximidade, consegue manter a distância necessária para não confundir a sua história com a nossa. Há momentos em que a gente só precisa falar e se sentir, de verdade, ouvido. Só isso. Só isso tudo.

     Pra vó Edith, lá na infância, eu contava os meus pequenos segredos infantis, que eram imensos para mim. As tímidas artes que eu aprontava, sem que ninguém desconfiasse, na maioria das vezes. A real intensidade da esperança de realizar as metas mais inocentes, como ganhar uma bicicleta Caloi no Natal, após exaustivas campanhas domésticas. O tamanho todo de certos medos que eu tinha, mas que mostrava, quando os mostrava, bem diminuídos. As primeiras dores que me apertavam, num tempo em que eu ainda nem sabia direito o que era dor e o que era aperto. Depois, já adolescente, eu lhe contava sobre cada novo projeto, logo assim que eram colhidos, fresquinhos, do pé de sonhos de folhas muito verdes que eu cultivava no coração. Contava, entusiasmada, sobre as possibilidades que faziam a minha vida inteirinha sorrir. Contava sobre os flertes, o clima dos encontros, os diálogos que aconteciam e aqueles que eu imaginava de forma tão apaixonada que até me pareciam de verdade.

     Ela ouvia e eu saboreava a oportunidade daqueles instantes com o mesmo contentamento que sinto até hoje diante da certeza de cada bom e raro confidente que a vida me traz. Ela ouvia com muito ouvido, os olhos sorrindo por estar ali comigo, e, geralmente, com poucas palavras. Do que dizia, nas circunstâncias de cada novidade que eu lhe contava, a minha ansiedade por querer saber se a semente do meu sonho conseguiria florir ou não, ficou uma frase bastante frequente. Uma frase que, depois de tantos anos, ainda ouço, muito nítida, toda vez que meu coração bate mais forte por algum encanto: “Peça a Deus para que aconteça o que for melhor para você, porque Deus sempre sabe o que é melhor para nós; a gente, não.”

     Não dizia para ela, mas eu ficava meio cabreira com aquela história, morria de medo de pedir aquilo. E se o que Deus sabia que era o melhor para mim não tivesse nada a ver com o que eu queria acreditar que era, no afã do meu desejo? E se o melhor que pudesse acontecer fosse simplesmente não acontecer o que eu esperava? Às vezes, queremos tanto o que queremos que não passa pela nossa cabeça que talvez isso possa não ser tão bacana para a nossa vida como a força do sonho faz parecer. Queremos somente o nosso desejo atendido e ponto, sem delongas. Não dizia para ela, mas geralmente eu achava mais tranquilo não pedir, não. Quando pedia, era mais ou menos assim: “Deus, que aconteça o que sabe que é melhor para mim, mas, olha só, você sabe que isso que eu quero é maravilhoso demais, não sabe? Se não está convencido, peraí um pouquinho que eu explico melhor e você vai me dar razão.”

    Olhando para trás, porque às vezes só bem mais a frente conseguimos entender certas coisas do passado, eu percebo que, em vários momentos, ainda que eu não pedisse, parece ter acontecido o que Deus sabia que era melhor para mim e não o que eu superficialmente imaginava saber. Percebo que em algumas circunstâncias em que cheguei a lamentar pelo insucesso de planos que eu considerava os melhores do mundo, eu estava, na verdade, sendo poupada de encrencas das grandes. Hoje, eu entendo que quando a minha vó dizia aquilo ela estava apenas sugerindo, com outras palavras, que eu tivesse fé. Essa entrega diante do desconhecido. Essa possibilidade de soltarmos o suposto controle que acreditamos ter. Esse sentimento de que fazemos parte de uma inteligência que tudo toca, ama e conhece. Essa humildade para reconhecermos que na esfera da nossa mente mais grosseira nós sabemos muito pouco, quase nada. Essa confiança de que acontecerá realmente o que for melhor para nós, ainda que no tempo de cada acontecimento, tantas vezes cegos pelos nossos desejos, não possamos entender o que somente a nossa alma sabe.

     Deus e a nossa alma vivem em contínuo diálogo desde os tempos mais remotos. São confidentes um do outro. Sabem segredos preciosos que não nos contam enquanto não nos for possível entendê-los. Veem cada fato sob uma perspectiva pela qual muitas vezes ainda não sabemos enxergar. Conhecem o jeito como as peças se encaixam, enquanto nos desgastamos tentando encaixá-las de qualquer maneira, com sofreguidão, para atender aos nossos interesses imediatos, mesmo que, restritos pela urgência dos seus apelos, não tenhamos visão do panorama real.

     A fé é um exercício pra vida inteira. Muitas e muitas vezes, eu me distancio incrivelmente dela, achando que posso resolver tudo sozinha. Não é raro nessas ocasiões, na verdade é bastante comum, eu me atrapalhar toda num turbilhão de emoções que me drenam a energia e o sorriso. Mas, toda vez que consigo acessá-la, de novo, tudo se modifica e se amplia na minha paisagem interna. Na fé, eu sou capaz de me dizer, com amorosa humildade, que grande parte das vezes eu não sei o que é melhor para mim. Eu não sei, mas Deus sabe. Eu não sei, mas minha alma sabe. Então, faço o que me cabe e entrego, mesmo quando, por força do hábito, eu ainda dê uma piscadinha pra Deus e lhe diga: “Tomara que as nossas vontades coincidam”. Faço o que me cabe e confio que aquilo que acontecer, seja lá o que for, com certeza será o melhor, mesmo que algumas vezes, de cara, eu não consiga entender. "

Ana Jácomo

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Pequeno post de mim mesma


     Vejo a vida se transmutando, alternando cores, mudando rotinas, gritando desejos paralelos que se acumulam com uma urgência desigual. Não me assusto mais em me assustar, mudo o foco, o jeito de olhar.  Reconstruo sem alargar os passos, persisto no tempo, me recolho como um caramujo, preservando alguma coisa que acho que precisa ficar entocada em mim mesma. Não é vontade de distanciamento, mas reconfigurar os dias é necessário como nunca antes podia ter suspeitado. É como o movimento da vida, da natureza dizendo que é preciso caminhar em manhãs ensolaradas ou noites frias, sentindo com dignidade a ânsia que nos diz que muita coisa ainda está por vir. 

Thaís de Miranda

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Continuando do começo


   Olá!
   
   Há algum tempo venho tentando encontrar o enfoque principal desse blog que, de tanto misturar ideias, acabou perdendo sua razão inicial.
     
   Aos meus olhos, o mundo tem parecido esquisito. Minhas percepções sempre parecem estar contrárias aos meus valores e desejos corriqueiros. Tenho a nítida impressão de que o que realmente importa está cada vez mais fora de moda.
      
   Percebo claramente muitos buscando por coisas que não preenchem nada além dos olhos, durante os poucos minutos que a superficialidade lhes permite observar. Sinto-me uma estranha com pontos de vista diferentes e com foco em algum lugar bem mais distante do que a maioria.
   
   Em contrapartida, consigo perceber exceções. Do tipo que grita alto, dizendo que também gostaria de pertencer a um novo elo de gente. Gente comum. Gente como a gente, com vontade de mais, sem preguiça de pensar, de dizer, e de dar um novo passo.
   
   A ideia inicial do blog era ter um lugar para redigir tudo o que penso, como uma espécie de diário mesmo. Tentei aplicar algumas outras ideias, mas acabo perdendo o interesse.
   
   Adoro maquiagem e moda, mas prefiro deixar o assunto para quem conhece. Acredito que podemos falar de coisas mais interessantes do que consumo e cor de esmaltes. Adoro coisas mulherzinha, sou mulher e vaidosa. Mas gosto de gente, de comportamento, de leitura, cinema, fotografia, decoração, novidades variadas. Gosto da possibilidade de enxergar por um novo ângulo, a diversidade, a ideia de poder refletir, compartilhar sobre o que a maioria coloca em segundo plano na vida. 
   
   E em primeiro plano está dividir, causar alguma mudança. Quase como uma corrente do bem - do tipo que a gente vê e nos faz bem, nos alivia, nos faz sorrir. Porque a gente descobre; e vi muito isso aqui, que muitas angústias, dores ou alegrias, foram compartilhadas. Pessoas que nunca vi, sentiam ou viviam o mesmo e dividiram suas experiências. Essa troca vale muito a pena!
   
   No primeiro momento parece careta demais, porque fácil mesmo é falar sobre superficialidades...
   
   No fundo este é um espaço que (me) permite reflexão. Talvez fora de moda, pode ser! Mas nem sempre é chato, desinteressante. Tudo depende do ponto de partida e da vontade de mudança e consciência que cada um tem.
   
   Junto com a minha necessidade de compartilhar textos, pensamentos, discussões, enfim, veio meio involuntariamente o início desse canal. Compartilhar gostos é compartilhar um pouco de nós mesmos. Talvez por isso, a falta de interesse em desenvolver sobre alguns assuntos... Espero que entendam, e obrigada pelo feedback!
   
   É uma tentativa de blog sem muitas pretensões, mas que divido de coração aberto, para quem tiver interesse em ler, ouvir, analisar, pensar...

Um beijo,
Thaís